TRANSMONTAR

Dissertações sobre Trás-os-Montes, seu passado, presente e futuro. Idiossincrasia transmontana e visão do mundo a partir deste torrão.

15 junho 2009

Risco Sistémico

Se o malogrado voo AF 477 tivesse sido designado TP 477, o socorro aguardaria estudo de impacto de risco sistémico, cuja declaração dependeria do cardinal de baixas relevante para a contabilidade eleitoral; se este voluntarioso Governo se deparasse com a necessidade de uma reedição da operação “Mar Verde”, desesperaríamos sete meses pela decisão de não ingerência, doutamente fundamentada na ausência de risco sistémico detonador de novos descuidos, uma vez ponderada, com evidente dose de pesar, a desproporção de meios a empregar por prisioneiro resgatável.
Risco sistémico passou a ser considerado, não já a capacidade de contágio, efeito cascata que o descalabro provoca nos vizinhos de uma mesma indústria, com o cortejo de custos sociais, financeiros e económicos associados, mas o efeito colateral que a omissão do Estado não permite considerar negligenciável. Por defeito, o Poder, a sua conservação ou renovação dependem muito da ausência deliberada do Estado dos teatros do conflito, do temor da conotação tomada pela ingerência inevitável. Toda a energia e esperança se depositam na auto-regulação que todas as crises comportam em menor ou maior grau (lembram-se do bloqueio dos camionistas há um ano atrás e o caso Bela Vista de há dois meses?). Fingir que não vê nem ouve, até que o clamor das vítimas ameace propagar como rastilho consumidor da base de confiança sobre que assenta o contrato político, constitui a táctica distante e calculista cujo preço varia segundo uma escala de risco sistémico.
É com base no princípio corrigido de risco sistémico que se deve ver a divergente actuação do Estado nos conflitos simultâneos que eclodiram no BPN e no BPP. O descartar de responsabilidades, ao fim de meses de falso interesse ou de envolvimento enganadoramente empenhado, o abandonar desapiedado à sua sorte, a mais flagrante e chocante quebra de solidariedade para com as vítimas dos equívocos associados a esta última instituição dizem tudo acerca do carácter sádico, vingativo e perverso deste Estado distante, alheado do destino dos seus cidadãos, entidade capturada pelos interesses últimos dos seus titulares.
A vil traição à tradicional compaixão e elevada generosidade, tão enraízadas no tecido social – ainda por cima servida com requintes de hipocrisia de quem quer fazer crer que zela, prudencialmente, pelos interesses supremos do Contribuinte – não permitem equívocos relativamente às intenções e padrão ético, tão negativamente exemplares, destes servidores do povo.
Para cá do plano moral, o impacto destes meses de demagogia rasteira, empenhada na diabolização oportunista e falaciosa dos fins últimos do capitalismo, alegadamente desalmado e em colapso, gerará efeitos de rejeição que perdurarão muito para além da data de superação da actual crise e que muito afectarão a economia emergente, tão sôfrega que estará do mercado de capitais como plataforma, esquecida por agora, geradora de liquidez para alavancar o investimento.
Confundir investimento mobiliário com jogo de sorte e azar, mais que ignorância é manipulação de má-fé, cujos efeitos perversos irão além da responsabilidade destes imputáveis agitadores.
O mesquinho juízo de condenação do enriquecimento como, em geral, coisa pouco recomendável para gente virtuosa que valoriza a superioridade moral da vidinha sem ambição maior que a perna, operado pelos mesmos que, ainda há pouco, colaboravam em campanhas de promoção do empreendedorismo, fará tanto pela estimulação do nosso lado invejoso, atávico, passivo de velhos do Restelo, que é sem dificuldade que se vaticina um longo e sombrio futuro de redução ao fatalismo da pobreza crónica.

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