TRANSMONTAR

Dissertações sobre Trás-os-Montes, seu passado, presente e futuro. Idiossincrasia transmontana e visão do mundo a partir deste torrão.

18 maio 2009

DÉFICE FUNDACIONAL

- Que é que temos de dar às plantas, além de carinho e de regá-las? – pergunta a professora.

- Luz, senhora professora. – responde o aluno de forma tímida e sem se fazer ouvir junto da mestra.

- Temos de dar-lhe luz, professora. – irrompe decidida e intempestiva a pequena Inês, apropriando-se da resposta e o acanhamento do colega.

- Certo. Muito bem, Inês! – remata a professora, caucionando o oportunismo.

Depois de retirar a senha que me atribuía o número de ordem e me indiciava o tamanho da espera, resguardei-me, atento, numa das extremidades do longo e cobiçado balcão da peixaria.

Um exército de impecáveis e diligentes fardas brancas amanhava peixe e despachava freguesia com profissional frenesim.

A meio da longa impaciência, o painel electrónico pingava o meu número e autorizava o berro estridente da alheada peixeira. Inibido de lhe retorquir com equivalente volume sonoro, cumpria um frenético aceno e procura anunciar-me num tom de voz civilizado, mas inaudível para aquele tímpano treinado para captar a proverbial vozearia de apinhada lota.

Convoca a peixeira o cliente seguinte que se apresta; segue, de imediato, o atendimento do dito ocasional e aproveitador colega de formatura. À minha já descomposta reclamação, suspende-se, de súbito, a indevida ultrapassagem. Juras de inocência justificam o breve recuo táctico por parte do finório. A peixeira, essa prossegue o amanho, aparentemente desinteressada da disputa. Segue-se um tíbio e inconsequente gesto de cedência, mais protesto, que o serviço estava praticamente terminado e que não valia a pena tanta algazarra...

Pois não, acato resignado. Com povo assim só o cogumelo atómico por sobre aquelas cabeças, o big-bang inicial, concluo em resmungo abafado.

Independentemente do estádio de desenvolvimento pessoal, a vida social dos indivíduos requer paradigmas comportamentais, modelos de conduta inspirados por valores éticos, personificação desses arquétipos filosóficos, faróis morais inspiradores das escolhas pessoais no palco social.

Protagonistas de primeira grandeza, tanto para o aplauso, quanto para o apupo, menos para a exaltação, mais para a pateada, apresentam-se os actores políticos. Todos os seus gestos são analisados, os pensamentos perscrutados, as intenções – as primordiais e as segundas – adivinhadas. A sua representação a todos diz respeito, sobre todos se estendem os efeitos dessa acção. De forma directa, o constrangimento legislativo abstracto e datado; indirectamente, as influências bebidas nos traços de personalidade, aferidas na justeza das decisões, na clareza do interesse geral a salvaguardar e nos quadros morais e filosóficos que as enformam.

Dependentes do sentido destas influências, o acatamento ou a rejeição da desejada bondade do quadro normativo regulador da interacção social medem o estado geral da saúde social, decisivo para a validação do estádio de bem-estar civilizacional, de desenvolvimento e coesão da sociedade sustentável e solidária.

Vem isto a propósito de uma recente entrevista, concedida ao Público pelo bispo D. Carlos Azevedo, em que o tema da regulamentação da Concordata emergiu. É reconhecida a má vontade do actual Governo em relação à Igreja Católica e todas as suas emanações, o que, associado à vertigem pelos “temas fracturantes” da matriz cristã da sociedade conduzem a um quadro geral de hostilização deliberada e metódica daquela.

Pactuar livremente, condicionar, artificialmente, a produção de efeitos do que se aprova e ratifica e suspender a aplicação do que não se revogou indicia reserva mental ou má-fé.

Tenho para mim que este limbo é para manter até aos resultados do pleito outonal e, contrariamente à disposição optimista do Senhor Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, suponho que o Governo ocultará, até àquele momento, a intenção de anular todo e qualquer compromisso, à luz dos princípios republicanos de um Estado que se quer laico. Mas logo após e com a renovação da legitimidade democrática por que anseia, rasgará, a Concordata e lavará as mãos perante quaisquer outros compromissos confeccionais (capelanias...). O estado de crise social em que a Igreja é um parceiro, simultaneamente, facilitador e incómodo, requer perícia negocial na gestão de expectativas, frustráveis sem remorso a partir de Outubro.

Receber em nossa casa e negociar com regimes corruptos e desrespeitadores dos direitos humanos da Ásia, África lusófona, América Latina ou outras latitudes, em nome dos sacrossantos princípios da realpolitik, exigir diligência no cumprimento das obrigações dos cidadãos perante o Estado leonino que negligencia a reciprocidade perante aqueles e seus interesses e direitos, orientar o desempenho de cargos públicos de acordo com as conveniências pessoais futuras são outros exemplos que fomentam o relativismo moral que nos mantém a divergir de sociedades maduras e civilizadas.

Quem quantificará este deficit fundacional? Quantos milhões de desperdício e ineficiência, de negligência e fraude, de delapidação e de apropriação indevida se ligam a esta histórica desconfiança mútua, qual o custo desta deseducação?

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